Ensaio 002 | A vida que estou levando foi realmente a que escolhi?

Essa é uma pergunta simples de fazer, mas nem sempre fácil de responder.

E não estou trazendo aqui um questionamento sobre as grandes decisões que tomamos na vida. Afinal, dificilmente acordamos um dia e decidimos, de forma consciente, viver uma vida distante de quem somos.

Estou apontando para aquelas pequenas decisões, sabe? Aquelas que quase passam despercebidas e que vão nos afastando aos poucos daquilo que de fato faz sentido para gente.

Aceitamos um trabalho porque fazia sentido naquele momento. Mantemos uma rotina porque ela funciona. Repetimos hábitos porque sempre fizemos assim. Vamos dizendo “sim” para pequenas coisas e, quando percebemos, elas já desenharam uma vida inteira.

E com isso, em algum momento, surge uma sensação difícil de explicar. Não exatamente tristeza. Nem infelicidade. É mais como a impressão de estar vivendo uma vida que funciona… mas que deixou de conversar com quem nos tornamos.

Foi observando isso nas pessoas, que essa pergunta começou a me acompanhar. Percebi quantas pareciam viver apenas seguindo o fluxo, sem parar para perguntar se aquele caminho ainda fazia sentido. E, inevitavelmente, trouxe essa reflexão para a minha própria história.

Lembrei-me de que eu também já havia vivido assim…

O curioso é que sempre fui uma pessoa muito reflexiva. Desde a adolescência, pensar sobre a vida sempre foi uma forma de compreender o mundo e a mim mesma. Ainda assim, durante um processo terapêutico, percebi que refletir sobre a vida não nos impede de, às vezes, deixar de escutar a nós mesmos. E que algumas escolhas estavam sendo sustentadas mais pela continuidade do que pela presença.

Foi um incômodo importante. Me fez perceber que ninguém está completamente imune a viver sem revisar, de tempos em tempos, a própria história.

Outro momento que precisei revisar os caminhos, foi sobre os planos para o futuro. Quando iniciei a graduação em Psicologia, também cursava Ayurveda. Faltava apenas um ano para concluir a formação quando percebi que aquele caminho já não era coerente com os planos que eu começava a construir para o futuro.

Eu entrei em conflito, achei que mudar de direção significaria desperdiçar tudo o que havia vivido até ali. Como se interromper aquele percurso apagasse o conhecimento adquirido, as pessoas que conheci e tudo o que aquela experiência havia despertado em mim.

Precisei ser honesta comigo mesma.

E essa honestidade não teve relação apenas com mudar de curso. Ela começou quando reconheci que, mesmo sendo alguém acostumada a se observar, eu também podia entrar no modo automático. Eu também podia continuar caminhando por um caminho apenas porque já estava nele.

Hoje penso que uma das formas mais honestas de viver é permitir que novas experiências transformem aquilo que um dia acreditávamos ser definitivo. Afinal, ninguém continua exatamente igual depois das perdas, dos encontros, das leituras, das alegrias e das decepções.

Nós mudamos. E, se mudamos, algumas escolhas também precisem mudar. O que não significa viver em constante instabilidade ou abandonar tudo ao primeiro sinal de dúvida. Significa reconhecer que a pessoa que fez determinadas escolhas há dez anos talvez não seja exatamente a mesma que existe hoje.

E essa ideia também aparece na psicologia.

O psicólogo Erik Erikson defendia que a construção da identidade não termina na adolescência. Continuamos nos formando ao longo de toda a vida, à medida que enfrentamos novos desafios e reorganizamos a forma como compreendemos quem somos.

Anos depois, o psicólogo Dan McAdams ampliou essa compreensão ao propor que construímos nossa identidade por meio das histórias que contamos sobre nós mesmos. Afinal, nossa vida não é apenas uma sequência de acontecimentos, ela também é a narrativa que elaboramos para dar sentido a eles.

Talvez seja justamente por isso que revisar escolhas possa ser tão desconfortável. Não estamos apenas mudando de direção, mas estamos reescrevendo, ainda que parcialmente, a história que contamos sobre quem somos.

Carl Rogers lembrava que viver de forma plena exige abertura para a experiência. Em outras palavras, crescer também significa permitir que aquilo que vivemos transforme a pessoa que acreditávamos ser.

Percebe que todas essas ideias apontam para algo em comum?

O ser humano não é uma obra acabada. Estamos em constante construção.

Através das escolhas que fazemos, dos encontros que nos atravessam, das perdas que nos transformam. E, principalmente, nas revisões que temos coragem de fazer sobre nós mesmos.

Amadurecer tem menos a ver com permanecer exatamente igual e mais com continuar em diálogo com a pessoa que estamos nos tornando. Por isso, de tempos em tempos, gosto de voltar àquela primeira pergunta. Não porque ela sempre produzirá respostas diferentes. Pois muitas vezes, a resposta continua sendo um “sim”, mas um “sim” muito mais consciente do que antes. Já outras vezes, ela nos mostra que algumas escolhas cumpriram seu papel e já não precisam sustentar o restante da nossa história.

Enfim, talvez viver seja justamente isso de não encontrar uma versão definitiva de nós mesmos, mas continuar tendo coragem de perguntar se a vida que estamos levando ainda conversa com quem nos tornamos.

E é provável que essa conversa nunca termine.

Se você quiser continuar essa conversa…

A pergunta que atravessa este texto — “A vida que estou levando foi realmente a que escolhi?” — também aparece, de diferentes maneiras, em autores da psicologia que dedicaram seus estudos ao desenvolvimento humano, à identidade e à busca de sentido.

Se esse tema despertou sua curiosidade, talvez estas leituras também despertem:

Carl Rogers – Tornar-se Pessoa

Rogers propõe que viver de forma plena não significa permanecer igual, mas estar aberto às experiências que nos transformam.

Viktor Frankl – Em Busca de Sentido

Um convite para refletir sobre como o sentido da vida pode ser reconstruído, mesmo quando o caminho precisa ser revisto.

Até o próximo ensaio.

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